terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Recaída.

n˚ 55

Eu tentava te ligar só para falar que estava com saudades. Naquele ônibus lotado, cheio de gente que nunca chegará nem perto de ser o que você foi.
Discava seu número e nada acontecia. A vontade de ligar só para isso, veio do nada. E veio com uma força imensa.
Eu senti. Previ, mesmo que inconscientemente, o que ia acontecer. Penso, todos os segundos dos dias que se seguem sem você, que isso podia ter evitado algo. Mas, lá no fundo, sei que não.
Eu sinto tanto sua falta, que nem sei colocar em palavras o quanto. Posso utilizar de todo o dicionário que, eu sei, não vai adiantar.
Eu conto nossas histórias para as pessoas. As vezes sinto que elas se cansam, mas não consigo segurar.
Sem você, eu não seria eu. Sem você, meus filmes preferidos não iam ser os mesmos. Não ouviria música clássica, nem ópera. Não teria esse rosto, essa altura, esse temperamento difícil.
Se não fosse você, minha estante não teria tantos livros, eu não escreveria poesia, muito menos apreciaria, com tanto prazer, uma exposição de arte.
Se não fosse você, eu não existiria.
Sabe, as vezes tenho vontade de gritar com você, de raiva mesmo. De ódio. Por uns instantes, confesso, te odiei. Gritava, com todas as minhas vozes internas, para você voltar.
Já pedi para voltar no tempo e poder fazer-te mudar de ideia. Já acordei e peguei meu celular para te ligar. Instantes depois, me dei conta de que era impossível. Poderiam criar um telefone que ligasse para o além. A cobrar, como eu sempre fazia e você sempre ria da minha pobreza de créditos.
Queria poder te mostrar meus desenhos, meus trabalhos da faculdade e dizer, com todo o meu orgulho próprio, que eu não peguei dp nenhuma.
Queria andar pelas ruas de São Paulo, como nós fazíamos. Queria sentar ao seu lado, nas escadarias do Teatro Municipal e ficar lá por horas, conversando. Como a gente fez aquele dia.
Quem diria que um dia eu falaria de você no passado. Quem diria que eu choraria, como um bebê esfomeado, de saudade. Quem diria que você não estaria presente nesses dias em que sorrio e tudo o que eu desejo é poder compartilhar minhas alegrias e minhas vitórias com você. Quem diria que um dia eu diria para as pessoas que eu queria que elas tivessem conhecido você.
Quem diria que um dia eu daria tudo para ouvir seu "oi love".
Quem diria, pai... Quem diria.

1 comentários:

Anônimo disse...

nossa esse texto ficou lindo, te entendo perfeitamente, e você consegue ensinar a todo mundo a dar mais valor aos nossos pais enquanto ainda podemos ...